Experiências acrobáticas – La Maniobra SAT


Antes do incrível Raul Rodriguez batizar a formidável manobra com o nome de sua equipe num notório gesto de humildade, (ela poderia e talvez até devesse se chamar "La Maniobra Raul Rodriguez"), ele mesmo a chamava de Espiral Invertida. Se olharmos direitinho o que está acontecendo durante esta manobra, veremos que apesar de ser uma espiral, realmente algo está invertido. Enquanto o velame move-se para frente descrevendo uma espiral, (ao contrário do que muita gente achou logo que a manobra começou a ser vista perto do final do século passado quando começamos a escutar algo sobre uma incrível "negativa"), o piloto gira para trás; dá até para sentir o vento na orelha durante a experiência.

No último artigo que escrevi, que falava sobre os efeitos INdesejáveis da migração do eixo pendular, fiz uma pequena menção a respeito desta manobra que podemos agora dizer que se enquadra então entre os efeitos DEsejáveis da migração do eixo pendular.

A primeira coisa a considerar, não só com relação à manobra SAT, mas sobre qualquer evento no vôo de parapente é que se torna imprescindível que nos tornemos capazes de "ver o filme" da manobra em nossas mentes levando em consideração o deslocamento do conjunto ao longo da trajetória. Refiro-me a este ponto específico porque a maioria de nós, talvez motivados pelos vídeos que na maioria das vezes mostram os movimentos sem a referência do solo, tende a tentar imaginar a manobra como se o velame estivesse parado no ar. Acontece que não é assim e se pensarmos assim, fica muito difícil compreender a evolução do movimento. Se passarmos a então imaginar o conjunto se deslocando no ar veremos que a manobra fica mais compreensível.

Temos então, no caso do SAT, piloto e vela girando ao redor de um eixo vertical imaginário que se encontra em algum lugar entre o piloto e a vela o que difere completamente daquilo que acontece em uma espiral "normal" onde o tal eixo imaginário está próximo do extradorso com o piloto rodando numa velocidade muito maior que a do velame, afinal ele é quem está mais longe do eixo. O conjunto se desloca em direção ao chão com uma trajetória de 45º o que produz uma taxa de queda não muito alta por sinal, já que neste ângulo, temos o vetor da gravidade atuando no parapente apenas com 50% de sua força, (seria 100% se a trajetória fosse vertical em direção ao chão).

Esta trajetória é circular, como uma espiral e sendo assim, podemos imaginar que ela possui um eixo vertical imaginário ao redor do qual, os eventos acontecem.

O raio desta circunferência imaginária tem, neste caso, a metade do tamanho que teria se estivéssemos em uma espiral positiva comum, o que faz com que a velocidade de giro seja duas vezes maior. Apesar deste aumento de velocidade, a aceleração centrífuga não é maior justamente pela divisão do raio por dois. Acontece que o aumento de velocidade é compensado pela redução do raio o que significa menor aceleração centrífuga; física pura.

Vamos então analisar como a tal manobra acontece:

O piloto na maior parte das vezes está voando reto e entra em uma forte curva como se fosse descrever uma espiral positiva. Quando o parapente está quase completando 180º de giro e começa a contar com um início de aceleração centrífuga, o piloto aperta um pouco mais o freio do lado da curva procurando se esforçar para manter o corpo virado também para o mesmo lado (o de dentro), enquanto monitora um giro no eixo Y do velame até a estabilização em um ângulo de 45º de trajetória, ou seja, o mesmo ângulo de inclinação do alongamento em relação a linha do horizonte. Eu mencionei que o piloto deve se esforçar para se manter com o corpo inclinado para o lado de dentro da curva porque justamente no momento da entrada em SAT, o piloto tende a ser projetado para o lado de fora da curva, o que provoca uma alteração de altura de perfil, melando a manobra. O piloto pode (e deve) inclusive, procurar se apoiar nos tirantes do lado oposto para que não "caia" para o lado de fora da curva.

A entrada é bastante repentina, pegando os novatos de surpresa pela aceleração brusca. Depois que o SAT encaixa então não há mais nada que precise ser feito a não ser ficar segurando o freio com força (bastante força) enquanto se desejar permanecer na manobra. Para sair basta liberar o freio e dar um totó do lado de fora só pra garantir uma retomada de vôo para uma espiral mais comportada.

O que pode dar errado?

Esta parte é muito importante, afinal qualquer pessoa que queira aprender a fazer uma manobra cabeluda destas corre um risco muito grande de cometer um erro, assim como este que vos escreve que na primeira tentativa, teve de mandar o pára-quedas de emergência em frente à rampa norte em Andradas; taí algo que não desejo para ninguém.

O que acontece é que o SAT é uma manobra naturalmente instável, ou seja, é como se você tentasse equilibrar uma laranja sobre uma bola; ou ela cai pra lá ou ela cai pra cá. Assim, o piloto quando está tentando fazer a manobra, ora erra pra mais, ora erra pra menos.

Vamos ver o que acontece se o piloto errar para mais:

Se o piloto atrasa demais a entrada, demorando muito para puxar o freio ou puxando muito pouco, ele configura uma espiral positiva muito forte que obviamente produzirá uma taxa de queda muuuuito alta, isto sem contar que se tratará de uma espiral estável que precisará de intervenção do piloto para sair. Já podemos então concluir que o piloto precisa ter um bom domínio da espiral positiva em seus diferentes ângulos, seja no aspecto entrada, permanência ou saída. Marcelo Borzino já escreveu sabiamente duas vezes sobre as espirais positivas por aqui dê uma olhada no texto dele.

E se o piloto erra para menos?

Neste caso, o piloto antecipa demais o freio ou atua forte demais e a vela "passa direto" pelo SAT, entrando em uma negativa animal, totalmente fora do eixo vertical correndo risco sério de se meter numa grande roubada.

Isto foi exatamente o que o animalzinho aqui fez na sua primeira tentativa de SAT em Andradas – também, coitado de mim, naquela época, não havia um só cabra neste país de Deus que fosse sequer capaz de descrever a manobra; eu estava sozinho mesmo. Hoje tenho plena convicção de que crescer no nosso esporte não é coisa fácil de se fazer quando se está só; a instrução é um passaporte para o crescimento com segurança e deve ser valorizada.

Bem, voltando ao assunto, o piloto precisará então ser capaz de administrar muito bem uma negativa daquelas proporções o que por si só já é mais complicado que uma negativa standard que normalmente é introduzida num curso SIV.

Finalmente, um grande vilão é a saída, pois caso o piloto alivie o freio muito devagar, o parapente irá entrar em um mergulho fenomenal e sua taxa de queda irá se multiplicar repentinamente onde caso ele faça a experiência à baixa altura, poderá se ver em maus lençóis com a repentina aproximação do solo.

Para finalizar, é preciso lembrar que do ponto de vista físico, a manobra SAT e especialmente suas derivadas exigem muito mais do que as então conhecidas manobras acrobáticas mais tradicionais. Assim, músculos do ombro, costas, braços, pernas e abdômen, serão exigidos além do que você está acostumado. Para que o piloto possa ingressar nestes meandros com mais tranqüilidade, um programa específico de musculação e condicionamento físico se faz muito importante, sob pena de ser surpreendido por perigosas lesões de esforço repentino, especialmente considerando que é fácil passar 6G de aceleração centrífuga.

Não é necessário ficar explicando que este texto, apesar de parecer, não serve como manual de instruções para fazer SAT e impressionar seus colegas de vôo na sua rampa, não é verdade? É fácil perceber que é preciso de um programa de treino decente, elaborado por um instrutor, que explore cuidadosamente cada uma das etapas de tudo o que envolve a manobra para que se tenha o mínimo de garantia de que não se irá entrar para as estatísticas de acidentes.

As variações e derivadas

A partir do domínio da manobra SAT em combinações com outras manobras o piloto pode começar a entrar em terrenos mais "tenebrosos" e igualmente espetaculares. A primeira experiência poderia (e creio que deveria) ser o SAT assimétrico que é uma combinação de SAT com espiral assimétrica onde o piloto provoca o SAT para o mesmo lado que está virando a espiral. No momento em que atinge o ponto mais inferior (onde ocorre a soma de vetores da aceleração centrífuga com a força da gravidade), ele provoca o SAT. O resultado é belíssimo, mas a recuperação precisa de atenção para não virar um mergulho no vazio com possível gravata e problemas sérios pela frente. O completo domínio da espiral assimétrica isoladamente em suas diferentes angulações é essencial neste caso.

Caso o SAT seja feito para o lado inverso da rotação da espiral, como se fosse uma entrada para um looping, iremos configurar uma experiência extremamente cabeluda chamada Tumbling. Estamos aqui falando de riscos de cair dentro da vela, o próprio Joãozinho nem tenta ver como é, parece que consegui convencê-lo na semana passada. É claro que poderá ser capaz de dominar um tumbling, aquele piloto que seja um exímio produtor de SAT’s assim como loopings, afinal é do cruzamento de ambas as manobras que a terceira é parida.

O Mac Twist é uma configuração que tem algo a ver com o SAT, mas está mais para o helicóptero, outra manobra bastante complicada inclusive. Há também uma manobra lindíssima chamada Misty Flip que é um Mac Twist mais comportado com o raio de giro cuidadosamente controlado. Novamente aqui é preciso muito domínio de manobras mais básicas para se poder chegar a estas misturas exóticas.

Poderei estar dizendo até um monte de besteiras quanto aos nomes destas manobras quase tão novas quanto a CPI do mensalão, que já está pra lá de velha inclusive, mas não minto quanto ao nível de dificuldade.

Ainda, em acréscimo ao artigo original, gostaria de comentar particularmente uma nova manobra chamada Infinity Tumbling. Trata-se de algo realmente pra lá de incrível e somente alguém como o Raul seria capaz de criar. Uma vez configurado um tumbling, ele o coloca em um ângulo tal que o permite infinitas evoluções por cima da vela na vertical absoluta sem que precise fazer nada, apenas ficar lá sentado... claro que não é bem assim, especialmente a saída que é aterrorizante. De qualquer maneira, o Raul já terá feito seqüências de mais de 70 infinity quando vocês estiverem lendo este artigo. A manobra baseia-se na dinâmica do parapente e na lei da gravidade. Até este momento, mais dois pilotos conseguem realizá-lo e quase lhes custando a vida: Felix Rodriguez e um francês que não lembro o nome agora.

Estas manobras são pura acrobacia, nenhum piloto precisa delas para se tornar um melhor piloto; ao mesmo tempo, é inegável que pilotos que conseguem realizar acrobacia corretamente são aqueles que possuem um alto nível técnico de controle da vela.

Sivuca – Silvio Ambrosini

Este artigo está publicado na revista Air de dezembro de 2005

 

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