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Em minha opinião, os acidentes ocorrem porque as pessoas acreditam que são capazes de fazer coisas que na realidade não são. As pessoas são
enganadas por um inimigo chamado clareza. Tudo parece muito fácil e elas agem como se as possibilidades mais nefastas não fossem para
elas, como se estivessem livres de acontecimentos inesperados, finalmente como se fossem imortais; algo como o cara que atravessa o sinal
vermelho com a mão na buzina como se o aquele aparato eletro-acústico fosse capaz garantir sua sobrevida.
Estas coisas acontecem para aqueles que não tem ou que aprenderam a dominar o medo. O medo nos impede de agir e de fazer as coisas que achamos
perigosas. Temos medo de nos quebrar e somos tolhidos pela sensação que ele produz. É um processo complexo aprender a dominá-lo, já que implica
em agir de uma forma que não estamos acostumados; algo como dar um salto nunca dado antes.
Bem, o cidadão se esforça e finalmente consegue dominar o medo em alguns aspectos. É uma grande vitória, já que quando isto acontece, o cara
se dá conta da enorme quantidade de atividades que não tinha coragem de praticar e que agora estão ao seu alcance. Voar de parapente é um
exemplo do controle sobre o medo. Estamos cansados de ver pessoas que ficam arrepiadas só de pensar em tirar o pé do chão, outras como eu
por exemplo e talvez você também, tem uma redução fabulosa do nível de stress no momento que o pé deixa o mesmo chão. Voar é mais perigoso
para umas do que para outras? Claro que não, o perigo é o mesmo; o que varia é o quanto a pessoa dá importância para o medo.
O negócio é que com o domínio do medo, passamos a sentir uma segurança muito grande. Esta segurança vem a nós como uma espécie de recompensa pelo ato de
ter aprendido a dominar o medo. Que ótimo!! Podemos fazer um monte de coisas agora!! Uma sensação muito boa toma conta da gente. Acontece que
esta segurança é uma "vaca de dois legumes".
O problema vem na seqüência, pois a recompensadora segurança também conhecida como clareza, pode nos cegar enganando-nos e fazendo-nos pensar
que tudo está sob controle. É preciso de uma boa dose de discernimento para poder distinguir entre a clareza real, o domínio das faculdades
motoras, emocionais e psíquicas e a o excesso dela que nos faz acreditar que tudo está sob controle quando na realidade está muito
distante disto.
Eu costumo dizer aos meus alunos que existe uma linha muito tênue que separa um vôo tranqüilo de uma catástrofe total. Precisamos nos esforçar ao máximo para
poder enxergar esta linha.
Bem, podemos fazer alguma coisa a respeito, afinal conversa mole não refresca... Acredito que o primeiro passo chama-se "assumir a
responsabilidade". Isto quer dizer que devemos assumir que somos os únicos causadores de todos nossos males e que tudo que de ruim
pode nos acontecer é produto de alguma falha nossa. Colocar nossa sorte nas mãos de santos, deuses, figas, superstições etc é um bom
exemplo. O cara chega na rampa, faz o sinal da cruz segura a figa, joga sal por cima do ombro e se arrebenta na primeira curva...
Escutei uma frase um dia: "você sabe quem guia este carro? é Alá"... Tudo bem, Alá é um cara legal, mas duvido que ele esteja muito preocupado com
suas barbeiragens. Quem devia estar preocupado era você. Provavelmente decidir qual espermatozóide vai fecundar aquele óvulo ou verificar na
lista de defuntos do dia qual desce pro umbral e qual toma lugar na orquestra de harpas dos anjos do firmamento, já toma uma boa porção
das horas de serviço de nossos "Salvadores"...
Sinceramente, esse negócio de "entregar nas mãos do Senhor", não me parece a atitude mais sensata diante de algo que é de sua inteira responsabilidade. A
verdade é que as pessoas não querem assumir responsabilidades, você vê... a coisa mais difícil é escutar alguém dizer que cometeu um erro.
Normalmente, o que escutamos? Mil fatores foram responsáveis, foi culpa do Tuzim, furou o pneu, choveu e teve enchente, o vento mudou de
repente, o parapente me enganou, o poste atravessou na minha frente e por aí vai... nós nunca somos culpados porque não somos responsáveis
por nada.
Um bom passo a seguir também é "reduzir o nível de compromisso". É verdade, pois muitas de nossas cagadas acontecem porque tínhamos um compromisso com
alguém. Vocês já viram a quantidade enorme de pessoas que usa como desculpa para coisas que ela não quer fazer a seguinte frase: "Eu tenho de ir
numa formatura, ou num casamento, ou o que for".. ou então "eu tenho que ligar para minha mãe", ou "eu tenho que levar minha namorada"...
e assim por diante... é impressionante a quantidade de coisas que as pessoas TÊM de fazer e forem ver bem, elas não têm coisa nenhuma,
apenas são loucas por compromissos. Os compromissos são uma forma de status, quem não tem compromisso é vagabundo, desnaturado, alienado,
desligado... ter compromisso é fazer parte da sociedade, do sistema, é agir da forma como as pessoas esperam que elas ajam, é ter um
número. Quando você não tem compromisso de agir da forma como esperam que você aja, seu compromisso diminui e você fica livre, fica
fluido, fica suave, fica leve e obviamente erra menos. Um aluno meu perguntou que dia ele faria seu primeiro vôo. Eu respondi: "por
que você quer tanto saber isto?" E ele: "É que preciso avisar meus amigos, quero que todos estejam presentes para ver eu fazer meu primeiro
vôo.." Eu expliquei a ele que era preferível que ele não chamasse nem amigos, nem família, nem namorada para ver o seu primeiro vôo, pois
aquela seria uma ocasião tão importante para ele que ele não poderia ter nenhum compromisso maior que o de inflar corretamente seu
parapente, decolar, aproximar e pousar (fora pagar a janta do instrutor). Expliquei que quando tem um monte de gente de volta, criamos
compromissos com as pessoas... "não posso errar...não posso dar vexame... não posso decepcioná-los"... se estes compromissos não
existirem, então você estará livre para fazer sua parte dedicando-se única e exclusivamente a você.
Quantas pessoas você já viu trocando de parapente porque os amigos trocaram também? Ou decolando numa condição absurda porque tinha gente assistindo na
rampa? Ou virando um doido das manobras quando fica sabendo que a TV está na rampa filmando? Aí está o compromisso.
Outra coisa muito interessante no vôo livre é quando as pessoas se julgam boas demais para fazer um prego. Já falei sobre pregos outro dia e é
engraçado observar que alguns pilotos preferem ficar o dia todo na rampa enquanto podia fazer ao menos um prego. Se explorarmos isto mais a
fundo, veremos que nos furtamos muitas vezes de gestos singelos pois julgamos que não teremos nenhum benefício oriundo deles. Nós
detestamos fazer as coisas sem obter algo em troca e o engraçado é que as crianças praticam isto o tempo todo. Na verdade, somos uns
idiotas que desaprendemos a agir assim. Quando somos crianças, somos capazes de utilizar uma parcela muito grande de nosso tempo com
atividades que efetivamente não nos trarão lucro, mas mesmo assim sentimos prazer e alegria em fazer estas coisas. Depois de velhos
ficamos desesperados por agir somente se houver algo em troca... "o que é que eu ganho com isso?" é a frase comum. Desenvolvemos uma necessidade
notória de precisar sempre levar uma vantagem e a verdade é que quando agimos simplesmente por agir, sem querer nada em troca, praticamos o
despojamento, praticamos a cultura da essência, a cultura do implícito. Ah, como isto é difícil... somos materialistas natos, é preciso ter um benefício
palpável, algo que se traduza em números, daí a incrível sede de números que as pessoas têm. Elas falam de L/D, taxa de queda, velocidade máxima,
quilômetros voados, metros escalados, reais ganhos, lucro líquido, quilômetros por litro, e por aí afora. Tudo precisa ser quantificado, pois
qualidade é algo difícil de enxergar... não serve... Assim, pratique o despojamento, faça um vôo apenas por fazer pouse onde
pousar, dure o que durar e verás como é agradável a sensação de não ter a mínima necessidade de subir num podium a vida toda.
As rotinas também podem ser perigosas. As vezes nos vemos fazendo coisas sem nos dar conta que ali estamos. Agimos por pura inércia.
Quem aqui nunca pegou o carro para ir a algum lugar e quando percebeu já estava lá e nem tinha notado o caminho? Aí você escuta alguém
falando: Puxa, você viu a passeata na Paulista? e você responde: Passeata? Que passeata? Precisamos tomar cuidado com as rotinas de nossas
vidas, não podemos nos permitir fazer coisas no automático, como se fôssemos máquinas porque não somos máquinas, somos homens e homens fazem as coisas providos
de algo que as máquinas não têm: Consciência. Precisamos então garantir que estamos o tempo todo conscientes daquilo que estamos fazendo,
precisamos estar presentes, pois se sua secretária falou que te deu um recado e depois você jura que não lembra, é porque
você não estava lá naquele momento.. você estava em outro lugar e um pedaço de sua vida foi vivido sem sua presença, só havia um monte de
carne e ossos sentado numa cadeira segurando um mouse, mais nada, você não estava lá. É preciso estar presente, é preciso estar consciente
de cada instante de nossas vidas, do contrário ela passa despercebida, e se você não percebe sua vida passando então você está morto. No
vôo livre temos exemplos de pessoas que decolam sem prender as pernas, que esquecem de prender o hangloop, que decolam sem perceber a velocidade do
vento ou que vão para o pouso para somente a 10 metros de altura notar que só há fios e cercas lá embaixo.
Como se pode ver, meu caro Christian... é impossível que os acidentes parem, pois eles são o retrato da vida humana na face da terra. Os acidentes sempre
acontecerão e alguns pilotos de parapente e asa serão enterrados pelos seus amigos e parentes assim como muitos continuarão vivos e fazendo cada dia
vôos mais maravilhosos e depois sentando na mesa do bar e batendo papo com seus amigos a respeito do vôo que fizeram, rindo, tirando sarro,
ficando bravo, escrevendo na lista, criando confederações, metendo o pau na ABVL... Essa é a forma como as coisas são e não podemos fazer
nada a respeito... Por mais que criemos regras de segurança, que imaginemos formas de evitar acidentes, que conversemos com as pessoas
sobre eles, que criemos campanhas de conscientização, que perdamos amigos queridos nestes acidentes, eles continuarão acontecendo pois só
morre quem vivo está. Devemos desistir então? Obviamente que não. Cabe a cada um de nós fazer o possível e o impossível, o fácil e o
difícil para permanecermos vivos o maior tempo que pudermos, pois basta um deslize e... tum...
Será que é tão difícil assim?

Sivuca
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Textos como
este e muitos outros ainda
mais bacanas no livro do
Sivuca "Voando de
Parapente". Compre
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