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O aluno didático

Quando Joãozinho decidiu aprender a voar, não imaginava que seria tão complicado. Na verdade o primeiro contato que ele fez com a escola, era para perguntar a respeito de um “hobby” que ele pretendia praticar. O instrutor explicou que parapente não é hobby, que precisa de bastante dedicação e que se não for feito com todo cuidado e seguindo todos os procedimentos de segurança, pode facilmente se transformar em tragédia.

Joãozinho achou um pouco de exagero no começo, afinal de vez em quando via uns caras voando e não parecia nada daquilo. Para dizer a verdade, Joãozinho achou até estranho, pois o professor até pareceu estar querendo afugenta-lo do esporte. Será que o parapente era tão perigoso assim? Mas a vontade de voar era forte demais e Joãozinho se inscreveu no curso.

Quando o curso começou, nosso herói viu que o professor estava certo em muitas coisas. Lidar com o parapente era bastante difícil, os movimentos não se pareciam com nada que ele experimentara até então... sua habilidade em andar de bicicleta, skate e surfar pareciam não ajudar em nada.

Inflar e controlar direito o parapente era mais complicado do que parecia e Joãozinho entrou numa fase difícil. Os exercícios eram complicaso e parecia que quanto mais ele treinava, menos aprendia. Mas a obstinação era grande e Joãozinho não ia desistir tão facilmente.

Durante aquela semana, Joãozinho encontrou um amigo professor e a conversa acabou indo para o lado das técnicas de aprendizado. Joãozinho se queixava do instrutor, disse que ele lhe pedia para fazer coisas aparentemente sem sentido, como correr morro abaixo e ainda ter que carregar todo o equipamento debaixo de um sol escaldante. Quando ele fez perguntas, o instrutor pareceu não dar muita atenção para elas e Joãozinho estava se sentindo um pouco frustrado.

Seu amigo ficou escutando até que disse: Joãozinho, não há dúvida que o instrutor tem um papel básico e essencial na formação do aluno, sem ele, você simplesmente não acontece. O seu instrutor é responsável por facilitar a comunicação entre você e o novo universo onde você quer entrar.

A questão é que o processo de aprendizado não é unilateral, onde os alunos são como passarinhos recém nascidos com seus bicos abertos esperando a mamãe colocar a minhoquinha na boca. Ao contrário, para aprender a voar, assim como aprender a fazer qualquer outra coisa, é essencial que o aluno entenda que tudo funciona muito melhor se for encarado como um processo bilateral, inteiramente depende da eficiência e da colaboração de ambas as partes. Vou te dar algumas dicas que tenho certeza que irão ajudar você a ser um “aluno melhor”.

1 – Procure olhar para cada exercício como um universo de movimentos que precisa ser desmembrado para que você possa estudar e compreender cada um destes movimentos de forma isolada. Desta forma, a confusão aparente da totalidade do exercício desmembra-se em células mais simples de serem compreendidas. Esta é a base essencial que vai nos guiar durante todo o processo.

2 – Comece então a desconstruir cada movimento tentando entender o motivo de cada etapa do movimento. Tudo tem um porquê, intimamente ligado a sua origem. Assim, você corre morro abaixo para produzir velocidade de deslocamento horizontal no seu parapente, você já tentou entender o motivo disto?

3 – Quando estiver praticando, procure concentrar sua atenção em cada uma destas etapas isoladamente, por exemplo, se você vai inflar o parapente, comece olhando para sua postura; está correta? Pratique-a isoladamente posicionando-se da maneira correta para só então passar para um movimento seguinte como encontrar os tirantes; no começo os tirantes lhe parecem um emaranhado de linhas e tiras, procure se acostumar com a “carinha” deles olhando, pegando, largando e pegando novamente seguidas vezes para só então passar para a etapa da puxada e assim por diante.

Na maior parte das vezes, a dificuldade de aprendizado está associada ao excesso de informações simultâneas, estudando separadamente cada etapa ficará mais fácil com toda certeza.

Veja por exemplo a dificuldade que temos para aprender a inflar o parapente reverso. Estamos invertidos e consequentemente temos sempre a tendência de nos movermos para o lado errado. O instrutor André Ramponi desenvolveu uma técnica que consiste em isolar cada lado do parapente segurando-o com a mão enquanto o aluno pode se concentrar na inflada sem que aquele lado atrapalhe. É um excelente exemplo de desconstrução do movimento, já que UM é sempre mais simples que DOIS.

Exercícios de slalom, corrida rápida, corrida lenta, inflar e estolar, corrida com obstáculos e vários outros, são formas muito eficientes de tornar o processo de aprendizado algo menos penoso e mais divertido, além de muito mais eficiente.

Durante seu treino, concentre-se completamente naquele exercício como se ele fosse o esporte em si. Imagine que cada exercício é uma engrenagem de um grande relógio. Se cada engrenagem estiver perfeitamente oleada e polida, a garantia de que o relógio funcionará perfeitamente no final será muito maior.

Pensar enlouquece, Joãozinho... pense nisso.

Sivuca – Silvio Ambrosini

revisão fev/2014

 

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