Aproximando Joãozinho
Joãozinho respirava
profundamente e o ar frio das alturas
entrava pelas suas narinas enquanto a
sensação de paz lhe corria o corpo. Agora
estava tranqüilo, mas minutos antes, altas
doses de adrenalina haviam arrepiado seus
nervos enquanto enroscava a termal
turbulenta que finalmente o tinha levado até
a base das belas nuvens que pairavam
despreocupadas sobre sua cabeça, formando um
apetitoso caminho a seguir.
Joãozinho era testemunha viva da mais
enigmática das sensações que correm pelas
veias dos voadores, a misteriosa
solidãozinha gerada pela distância entre o
piloto e o chão.
É uma coisa engraçada, algumas pessoas
chegam a ter medo desta sensação. O cara que
está pendurado no parapente, fica muito
distante de qualquer coisa, tanto dos lados,
quando embaixo ou em cima... não existe
outra forma de você se colocar em situação
semelhante, nem num avião, já que preso
dentro da carlinga, a sensação simplesmente
não funciona do mesmo jeito. Acho que é uma
sensação tão inédita, que alguns se
apavoram... Joãozinho tem uma amiga que
parou no centro de um campo de futebol e
começou a chorar desesperada. Agorafobia,
dizem... essa menina não pode voar não... ou
talvez só voar pertinho do chão. Dizem que
muitos acrobatas do parapente te medo de
altura.
Mas Joãozinho não estava com medo não,
estava ali feliz mergulhado naquele vazio,
naquele nada, tão longe de seus problemas
que era quase um outro ser, uma nova forma
de vida, que só atinge sua plenitude quando
se transforma num ponto na infinidade do
espaço. Olha só que interessante, se tornar
completo ao se tornar um ponto no espaço.
Para quem tem tendências megalomaníacas,
esta metáfora pode causar arrepios!
Mas eis que de repente, Joãozinho olha em
volta e descobre que é preciso pousar,
imediatamente! Não porque alguma urgência de
descer se fez presente, afinal Joãozinho
sempre faz xixi antes de decolar, vai que
toma um tombo; já pensou uma bexiga
arrebentando dentro da barriga? Não foi por
isto, mas sim porque o tempo passou e
Joãozinho não reparou que havia perdido
altura e agora o pouso era inadiável e era
preciso rapidamente encontrar um lugar para
fazê-lo de forma segura.
Fios, fios... onde estão os fios?! Ah, não
dá para enxergar fios, Joãozinho... procure
os postes!! Postes, postes, onde estão os
postes?! Ali está um! Ali está outro! Então
há um fio no meio, pouso cancelado! Subida?
Descida? Se pousar na descida, pode ser que
atravesso o terreno inteiro sem tocar o pé
no chão e aí o pouso acaba e eu pouso aonde?
Se pousar na subida, preciso pendular para
não enfiar a fuça no chão com força... ah,
tem o vento! De onde vem o vento? Preciso
pousar contra o vento! Preciso pousar contra
o ventooooo!!!
Joãozinho se ergue do meio de uma nuvem de
poeira. Seu pouso foi tecnicamente “Albatroziano”,
já que pousara de cauda e fatalmente saíra
rolando e se embramando (como dizem aqueles
meus amigos do interior) no meio das
linhas... bem, perdi o óculos, riscou o
vidro do vário, fora a sujeira que ficou o
macacão e a selete, fora o vexame e a dor do
pulso torcido. A molecada se reúne a sua
volta em respeitoso silêncio, afinal uma vez
uma risadinha arrancou severos gritos de um
voador de asa que mandara um severo crash no
mesmo lugar, não sei por que, mas tem gente
que fica muito brava quando alguém ri diante
de suas calças borradas... afinal, não é
engraçado quando um cara que pensa que é
passarinho sai rolando num arado poeirento?
Joãozinho agora recapitula e percebe que no
tesão das alturas, se esquecera de algo
óbvio: planejar o pouso. Esquecera-se que o
pouso é inevitável e é preciso preparar-se
com uma boa margem, escolher a primeira
opção e também a segunda e se possível, uma
terceira também, afinal sempre tem de haver
um plano B. Planejar tudo lá de cima,
descobrir de onde vem o vento usando o GPS,
o óbvio do vento da decolagem, o movimento
das fumacinhas ou fazendo um 360º, calcular
a inclinação do terreno, identificar
possíveis obstáculos, localizar a cabeceira
da pista, imaginar a zona de aproximação, o
planeio final e finalmente o pouso.
Joãozinho aprendera uma nova lição: para
voar com segurança, é preciso planejar tudo
direitinho, é preciso antecipar cada passo
visualizando e imaginando a maior quantidade
de variações que for possível e bolar uma
estratégia para se defender contra os
imprevistos. O tesão das alturas é
inebriante, mas você não pode permitir que
ele coma seus neurônios.
Não podemos nos esquecer que estamos lidando
com a mãe-natureza e que os imprevistos, são
a sua especialidade

Sivuca – Silvio Ambrosini
é instrutor habilitado para ministrar de cursos de
segurança em vôo.
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