De onde viemos, para onde vamos?
Esta pergunta, que martela a cabeça da
humanidade desde quando Adão entendeu que a
dor que ele sentia era a falta da costela
que gerou Eva (inclusive dizem que nessa
hora falou: “uma mulher dessas e eu aqui
operado...”), pode ser aplicada a qualquer
atividade ou instituição, se querem entender
assim.
Quando encaixamos esta pergunta no vôo
livre, nos lembramos das antigas histórias
que os sobreviventes da era paleozóica do
parapente, contam até hoje, já distorcidas e
corroídas pelo tempo. Tempo este que corre
muito mais rápido que o tempo que
conhecemos, com dias, semanas, horas,
minutos e segundos.
Aí está o grande problema de nosso esporte:
sua evolução é mais veloz que a nossa
própria evolução dentro dele.
Para entender o mecanismo deste risco, vamos
dar uma breve olhada aos recentes
acontecimentos que vieram trazer tristeza
para nossos dias de voadores. Amigos mortos
em acontecimentos completamente absurdos
repetindo-se avidamente.
Não me cabe aqui, julgar o que o Aléxis ou o
Borzino ou outros pilotos fizeram de errado
para colocar um ponto final em suas vidas,
mas sim procurar analisar a qual tipo de
influências estes nomes de nosso esporte,
ficaram vulneráveis.
Como vocês podem constatar na pequena máxima
que está no site da Ventomania, “venha fazer
um SIV e constatar que o buraco é mais
embaixo”, aprendi a ver cada “onda” do
parapente como uma potencial ameaça à meu
poder de julgamento. Não sei se foi apenas
observando amigos morrendo ou se acidentando
gravemente, ou foi sentindo no calor da pele
a queimação que certos riscos que eu corri
me causaram.
Voar é, sempre foi e sempre será
extremamente perigoso. Sábias são as
palavras do pai do Lisboa que nos seus 78
anos de idade, associa a prática do vôo
livre a pura inflação egóica. Realmente esta
é uma realidade que infelizmente governa o
dia a dia de não poucos voadores.
A possibilidade de destaque no meio, através
de um veículo completamente diferente
daqueles que a humanidade ordinária dispõe,
é um apelo de auto-afirmação perigosíssimo.
Chamar a humanidade de ordinária por si só,
já é uma forma de alegar que o que fazemos é
superior.
O chamado para o mundo da acrobacia, para a
troca indiscriminada de equipamentos, para a
loucura por instrumentos de vôo, ou para o
simples decolar na ventaca ou num dia cheio
de congestus, encontra paralelo imediato na
mitologia do canto das sereias, que atraía
para as profundezas da morte, marinheiros
machões hipnotizados pela promessa de cair
nos braços de belezas quiméricas.
Estes queridos amigos, ao meu ver, foram
enganados pela velocidade dos acontecimentos
e lamentavelmente não souberam dar tempo ao
tempo, permitindo que sua técnica se
adiantasse a sua sobriedade, esta que é
produto únido do acúmulo de experiência e do
bom senso.
Temos em nossas mãos um gigante com duas
pernas que crescem impulsionando-o para
cima. Numa delas reside a habilidade técnica
do piloto, sua capacidade de bailar no mundo
das acrobacias ou no mundo das
interpretações subjetivas. Na outra, reside
a experiência, esta que só é possível de ser
adquirida no convívio com o tempo. O
problema então, meus queridos, é que o tempo
no vôo corre rápido demais e a perna da
habilidade técnica cresce mais rápido que
aquela da experiência. Temos então diante de
nós, um gigante manco, pronto a
desequilibrar-se diante do primeiro
obstáculo e despencar no chão ingrato.
Há quem não concorde comigo e até ficará
indignado diante do que afirmo, respeito seu
direito, mas a necessidade que sinto em
dize-lo vai além da consciência de riscos de
ofender ou desapontar alguém. Foi o erro de
interpretação que matou Borzino e Aléxis.
Ambos cresceram velozmente em técnica, mas
não igualmente em experiência e capacidade
de análise das limitações pessoais. Crer em
fatalidade é um caminho fácil, atribuir ao
além, aquilo que está no aquém é o consolo
do fraco. A responsabilidade tem de ser
assumida e acredito sem dúvida, que ambos
foram incapazes de perceber que apesar de
sua habilidade, havia algo mais que
necessitava crescer e que pela pura lentidão
do tempo, ainda não havia crescido.
Falo deles dois por serem os mais recentes,
mas os senhores e senhoras sabem muito bem
quantas pessoas queridas ou não,
encontram-se e encontraram-se em situação
semelhante. Aos que morreram, resta-nos
lembrar do que nos trouxeram de bom, mas aos
que ainda estão vivos, o que dizer? O que
fazer?
É por isto que afirmo que precisamos baixar
a bola, precisamos entender que podemos
muito facilmente nos tornar vítimas da
velocidade do nosso esporte e virar história
de uma hora para outra.
Falei algumas vezes sobre acrobacia, mas a
instituição em si, não tem nada de errado, a
acrobacia é uma coisa linda sem dúvida
alguma, mas aterroriza-me ver a quantidade
de acrobatas que vem aparecendo por aí, como
se a prática fosse fácil.
Há uma onda acro que lamentavelmente pega
carona nos anseios da velocidade que se quer
dar as coisas e esta velocidade nos é
extremamente nociva e perigosa. Sábias
também foram as palavras do Curreca, ao
afirmar que o mundo da acrobacia não é o
culpado, mas sim as falhas de interpretação
de cada um.
Pilotos novos me procuram para aprender a
fazer SAT e outras manobras e sei que muitos
deixaram de me procurar diante das
“dificuldades” que impus aos seus caminhos,
dificuldades estas que lamentavelmente
contrastaram com a “facilidade” que pilotos
como estes nossos amigos apregoavam.
Pois bem, meus queridos. Estes
pilotos estão mortos!! A fórmula de
facilidade não funcionou e os atingiu em
cheio, jogando-os contra o chão ou para
dentro de seus parapentes.
Vocês, por sua vez estão vivos! O que vocês
farão de suas vidas de pilotos daqui por
diante? Continuarão a olhar para o esporte
desta maneira míope, onde é impossível
distinguir a linha que separa o risco da
imprudência? Continuarão a olhar para o
esporte com este olhar caolho que só enxerga
metade do que está a sua frente? Continuarão
a caminhar sobre este esporte com este andar
coxo de uma perna mais curta que a outra?
Continuarão a acreditar que o esporte é 100%
seguro, como escutei uma vez?
O que vocês farão?
Não lhes garanto que não cometerei um grande
erro amanhã, afinal grandes erros algumas
vezes os cometi, mas lhes digo sinceramente:
erro pouco, não porque sou bom, mas sim
porque tenho medo de morrer.

Sivuca