A importância do medo.
27 de fevereiro de 2009 - revisão fevereiro 2014

Fazia bastante tempo que eu não voava e quando decolei, fui tomado por uma sensação que havia muito tempo não sentia; é engraçado dizer, afinal sempre ou ao menos na maioria das vezes que pensamos e principalmente sentimos esta sensação, também pensamos em coisas como susto, assustar, ou ficar assustado. E você vai perguntar, E que sensação era essa?, A sensação era medo. Mas havia uma diferença importante, não era um medo que me assustava, nem um medo me fazia pensar em pousar o mais rápido possível, para dizer a verdade não me fazia pensar em pousar tão cedo, pois naquele exato momento o medo que eu sentia e que se revelava como um misto de calafrio e suor que subia pelo rosto provocava uma segunda sensação ainda mais surpreendente, eu sentia fascínio. Estava fascinado com a possibilidade de explorar uma sensação normalmente indesejada num momento que estava evidentemente sob meu controle. Pensei um instante, Será que realmente este momento está sob meu controle? Sim, estava. Eu podia pilotar meu parapente como sempre havia feito, mas desta vez experimentando cada décimo de segundo de meu voo com um novo sabor agridoce. Eu podia descrever a força que fazia nos comandos, a inclinação do corpo, o vento no rosto, as variações de pressão, os pêndulos, tudo era impressionantemente vivo, como se essa pontinha de medo fosse justamente a responsável pela revelação de tantos mistérios.

Então, diante do medo de fechar mais uma curva para enrolar uma termal, eu transgredia a fronteira fechando-a e em seguida me sentia espetacularmente seguro. Eu fazia isso porque sabia, sempre soube, sempre constatei que rodar termal fechado é mais seguro e então assim eu fazia. Foi nesse momento então que tive outra revelação: Nessa hora percebi o quanto é importante o ato de transmitir essas informações aos alunos, aos que ainda não tem real certeza do que irá acontecer. Foi nessa hora que percebi que quando um aprendiz sente que pode confiar em seu professor, ele está literalmente nas nuvens.

Quando o instrutor antecipa para seu aluno quais serão as sensações que ele irá sentir naqueles momentos e este efetivamente as sente, não há como aterrorizar-se, não há como dar um passo para trás. Isso nos deixa clara a importância do papel do instrutor quando é feito em sua totalidade. Aquele instrutor que explora exclusivamente o aspecto técnico/mecânico está infelizmente fechando-se em um casulo. O aprendizado vai muito além do desenvolvimento de técnica; as emoções e sentidos estão seriamente engajados no processo e se forem deixados de lado, nunca haverá um progresso real ou ao menos a continuidade deste, quero dizer que o processo de aprendizado irá empacar, atolar no domínio técnico e não poderá encontrar crescimento além de determinado ponto.

O medo então, não deve ser olhado como um problema, mas sim como um regulador, um verdadeiro professor antecipa as sensações que o aluno sentirá e coloca-o diante de desafios com soluções metodologicamente factívies. Uma vez suplantados, o instrutor garantirá a fixação dos resultados de forma a nunca serem perdidos.

Enfrentar o medo procurando compreender suas origens, seus mecanismos é inquestionavelmente uma das mais importantes formas de compreender como funciona nosso esporte e baseado nisto, encontrar os caminhos para chegar a nossos destinos.


Sivuca

Sivuca - Silvio Ambrosini

Sivuca é instrutor de manobras e ministra o Curso de Segurança do Sivuca

Ele também é autor do livro “Voando de Parapente”, a venda neste site, é só clicar aqui.

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