Mais que um par de olhos - técnicas para controle do medo.
Joãozinho vinha
protelando para fazer seu primeiro SIV há
tempos. Ora ora.. mas os anos se passaram e
ele até que adquiriu bastante experiência,
ao menos em seu meio de vôo, em sua rampa,
rodeado de seus amigos e conhecidos.
Então, finalmente
Joãozinho estava lá pronto para participar
do grande evento: O SIV VIP.
Joãozinho havia se
preparado, escutou e participou do briefing,
decolou direitinho, conduziu seu parapente
alinhadinho com o barco, subiu a mais ou
menos uns 550 metros de altura e respirou
fundo para fazer sua seqüência de manobras,
foi então que aconteceu o inesperado: na
hora fatídica, pensou, repensou e acabou
desistindo, literalmente fechando as orelhas
e conduzindo seu parapente direto para o
pouso.
Em conversa, logo após o
vôo, ele me confessou que sentira medo de
altura e preferira não executar as
manobras propostas.
Procurei investigar se
ele realmente tinha entendido o que era para
ter sido feito, mas não era este o problema.
Ele realmente havia sido arrebatado por uma
sensação que simplesmente o "proibiu" de
executar a seqüência pretendida. – Eu senti
um bloqueio, fiquei com muito medo e não
quis fazer a manobra, disse ele com uma
carinha meio sem graça.
Num primeiro momento
confesso que me surpreendi, afinal Joãozinho
já tem uma boa experiência e goza até de
certa notoriedade em seu meio. Conversei com
ele a respeito, na tentativa de ir mais a
fundo e descobrir o que se passara. Fiz
algumas perguntas a respeito do tipo de vôo
que ele estava acostumado a fazer e logo
chegamos a algumas conclusões interessantes:
Joãozinho raramente
ultrapassa certa altura em relação à rampa
onde costuma voar. Diverte-se muito no lift
e como é de se esperar, as raras e modestas
térmicas do local, dificilmente o levam até
alturas maiores que 100 ou 200 metros acima
da decolagem. Apesar disto, o local onde ele
voa, não tem condições exatamente
tranqüilas, é relativamente turbulento, o
que o obriga a fica sempre atento à condição
que o cerca.
Associei as imagens e
juntos, percebemos que , no SIV, os 500
metros de altura que separam um piloto da
represa lá embaixo, não são exatamente como
os mesmos 500 metros acima do relevo.
Acontece que, na represa, há um agravante,
que é a homogeneidade da paisagem. Ela torna
a noção de distância um pouco mais
imprecisa, afinal tudo é água lá embaixo e
as vezes é até difícil precisar a que
distância você se encontra da represa...
Para algumas pessoas, não há o menor
problema, ou stress nisto, mas para outras,
pode ser que esta diferença de paisagens
cause um efeito novo e eventualmente,
indesejado.
É aí então entramos no
terreno do novo, do indesejado e é claro, de
sua conseqüência mais imediata: o medo.
Medo é a primeira reação
diante do novo. Olhe só por exemplo, um
ator. Qualquer um deles, segue um script,
decora e repete as palavras que estão no
roteiro, mas para improvisar, é preciso ser
um artista de estirpe, talentoso, ou no
mínimo, bastante experiente. O improviso é a
novidade; lidar com uma situação nova evoca
sensações que poderemos não gostar. A
imprevisibilidade é difícil de ser digerida,
especialmente se comparada ao conforto de
saber "o que vem agora".
Assim, é perfeitamente
natural que sintamos medo diante de uma
situação como aquela que nosso amigo
Joãozinho se deparou.
Mas qual a fórmula? Qual
o método? Qual o segredo que pode nos
conduzir a dominar ou ao menos melhorar
nossa reação subjetiva diante do medo? Um
parêntese aqui é a expressão "reação
subjetiva". Algumas pessoas a consideram
assim por tratar-se de uma reação
inexplicável, num primeiro momento, fora
daquilo que podemos normalmente classificar
como racional.
A verdade então, é que
tudo deve iniciar com a compreensão do
mecanismo que evoca o medo. Temos de
analisar o que mudou e atacarmos
especificamente estas sensações. Acredito
que uma atitude básica é considerar
todas as variáveis como possibilidades
reais. Quando digo considerar, quero dizer
levar em conta, deixar de ignorar,
aceitar como real. Isto tem também algo
a ver com assumir a responsabilidade,
não no sentido moral, mas no sentido de
absorver não apenas aquilo que queremos, mas
todas as possibilidades que atingem aquilo
que realizamos ou nos envolvemos.
Então, no caso do
Joãozinho, há a dependência de um fator que
é identificável pela visão, ou seja, lá de
cima ele olha a represa lá longe e fica
apavorado. Então, não lhes parece que
Joãozinho está por demais, exclusivamente a
mercê daquilo que seus olhos lhe dizem?
Lembremos que o vôo é feito de várias
sensações, não apenas contato visual, mas de
sons, de sensações tácteis, como
temperatura, vento, aceleração centrífuga,
aumento ou redução de peso, frio na barriga,
etc, isto sem contar naquela vozinha que
ecoa lá dentro da gente e diz "não decole
agora, idiota! A condição está um lixo!!"
, já aconteceu isto com você? Não? Então
talvez você precise lavar melhor os
ouvidos...
Pedi então ao Joãozinho
que fizesse um exercício: ele deveria fechar
os olhos esporadicamente durante seu vôo e
investigar as sensações resultantes.
Joãozinho me disse que no momento em que
tentou fechar os olhos pela primeira vez,
sentira-se terrivelmente angustiado e
rapidamente escancarou a visão em busca de
seu "porto seguro".
– Então você descobriu
sua limitação, caro Joãozinho!, disse eu.
– Você acaba de se
colocar cara a cara com seu fator
neurotizante, que me parece ser a causa de
seus medos. O processo agora, consiste em
lenta e delicadamente, iniciar um processo
de exploração destas sensações, fechando os
olhos de tempos em tempos e procurando
orientar seus sentidos às demais sensações
que fazem parte do vôo. Assim, ganhe alguma
altura de segurança, feche os olhos por um
instante e procure escutar o que o vento lhe
diz... faça uma curva, explore a aceleração
centrífuga, o frio na barriga, entre em
contato direto com todas estas sensações e
você vai ver como elas estava
impressionantemente inexploradas por você.
Sabe Joãozinho, cá entre nós... muita
matemática pode atrapalhar o vôo... é
preciso de um pouco mais de ciências humanas
na nossa brincadeira.
Você não precisa ser um
piloto que voa de olhos fechados, longe
disto... mas você precisa ser um piloto, que
voa com todos os sentidos funcionando
perfeitamente, dando ouvidos literalmente,
para tudo que os olhos não são capazes de
lhe transmitir. E olha que tem um montão de
coisas que passam despercebidas pela visão.
Um exemplo prático da
eficiência deste processo é a capacidade de
prever colapsos através da análise das
sensações que os precedem, como redução de
vento relativo, frio na barriga, redução de
pressão nos batoques e assim por diante.
Não é difícil acreditar
que, se Joãozinho está sintonizando todos os
canais de recepção sensorial do corpo,
estará vários passos a frente de qualquer
manezinho (com todo respeito aos meus
queridos amigos da maravilhosa Floripa)
sintonizado apenas naquilo que os olhos lhe
transmitem. Não é preciso ir longe, basta um
pouquinho de treino e um baralho, que
qualquer um consegue enganar os olhos de uma
multidão quando eles menos esperam. Não
estou dizendo para você deixar de confiar
neles, mas você não acha que só um par de
olhos é muito pouco para quem quer crescer
no vôo?

Sivuca – Silvio Ambrosini
é instrutor homologado de cursos de
segurança em vôo.
 |
Textos como este e
muitos outros ainda mais bacanas no
livro do Sivuca "Voando de Parapente".
Compre
neste link. |
|
|