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Joãozinho pendulando

E a vida de voador de Joãozinho acaba de iniciar. Terminou seu curso básico, seu instrutor lhe ensinou a inflar, controlar, decolar, aproximar e pousar seu parapente.

Disse a ele que tomasse cuidado com o horário da decolagem, com a intensidade e a direção do vento e com os lugares que fosse voar.

Joãozinho vai para as rampas, olha para baixo, olha para cima e pensa seriamente se decola ou não... O que será que o céu o reserva? Pergunta para um piloto, mas a resposta é obscura. Pergunta para outro, mas não parece confiável.

Assim como Joãozinho, provavelmente você passa ou passou pelo mesmo dilema. Afinal, como deve agir o recém formado? Que tipo de vôo deve realmente o "preazinho" procurar fazer?

É importante que fique muito claro que a base técnica do vôo de parapente resume-se em uma palavra: PÊNDULO. Ora, o parapente é uma aeronave absolutamente única, pois diferente de qualquer outro parente voador, têm peculiaríssimas características pendulares, afinal cerca de 8 metros nos separam do velame, que é nosso centro de sustentação. Esta característica confere todo um universo comportamental absolutamente específico ao parapente.

Sendo assim, nos parece que o mais coerente é que o novo voador procure adquirir o máximo de informação e formação acerca de como funciona tudo aquilo relacionado à mecânica pendular.

A melhor forma de se executar estudos realmente produtivos, ao contrário daquilo que muita gente diz por aí, não é pegar levinho e ficar imóvel pendurado debaixo de seu parapente, mas sim executar exercícios que simulem de forma efetiva o mecanismo pendular do parapente.

Tais exercícios devem ser executados de forma progressiva e de preferência sob orientação de um instrutor que seja capaz de discernir que tipo de dificuldade lhe é mais comum de forma que este instrutor oriente o Joãozinho a executar o exercício adequado.

Os exercícios visam simular o comportamento do parapente na turbulência sob influência do ar que se move nas mais diversas direções. Os movimentos do ar turbulento fazem o parapente pendular inadvertidamente e quanto mais íntimo o Joãozinho estiver dos pêndulos, mais eficiente ele será no sentido de corrigir tais interferências. É através dos exercícios pendulares que Joãozinho consegue aprender a antecipar o comportamento pendular do parapente, vacinando-se contra eventualidades que costumam maltratar aqueles que se comportam como se voassem sentados sobre o aerofólio.

Uma outra grande utilidade dos exercícios é que eles concentram a atenção de Joãozinho em algo útil sem que ele fique ávido por pular etapas e tentar executar as conquistas mais "avançadas" de seus colegas mais experientes. Já pude observar grupos de pilotos mais experientes que erroneamente incentivam pilotos novatos a assumir vôos em condições claramente inadequadas para seu nível técnico enquanto estes deveriam estar voando em ares mais tranqüilos e ocupados com exercícios que o preparem para posteriormente experimentar os vôos mais turbulentos munidos de uma dose efetiva de confiança gerada pela prática e não pela coragem.

Existem vários tipos de exercícios que podem ser executados por Joãozinho. Podemos estabelecer um pequeno guia para a execução destes baseados em dois fatores: Tensão e relaxamento. Chamamos tensão o ato de aumentar um pêndulo, onde a ação do piloto provoca o aumento gradual do efeito pendular. Por outro lado então, entende-se por relaxamento, o ato de neutralizar o mesmo pêndulo, onde o piloto age para fazer com que o parapente pare de pendular da forma mais efetiva possível.

Ainda existe aqui outro fator que é importantíssimo para que as coisas funcionem corretamente: a independência de movimentos entre corpo e braços. Joãozinho precisa então educar os braços de forma que eles não interfiram no corpo e vice-versa. A idéia inicial sobre o movimento do corpo é a seguinte:

Quanto mais o corpo resiste ao movimento que o parapente "deseja" fazer, mais ele contribui para a amplificação do pêndulo. Isto é fácil constatar quando os pilotos executam acrobacias. As inversões de corpo acontecem nos momentos onde o parapente "solicita" movimentos no sentido oposto. Ao "desobedecer" o parapente, Joãozinho cria um efeito elástico que maximiza o efeito pendular. Este efeito que observamos nos pêndulos laterais se dá devido as alterações de raio resultantes da movimento do corpo na selete e é deles que estamos falando aqui.

Sendo assim, se Joãozinho permite que seu corpo se acomode ao movimento do parapente de uma forma, digamos passiva, o parapente responderá com suavidade adaptando-se aos acidentes do terreno aéreo, assim como a suspensão de um veículo.

Os braços têm uma postura completamente diversa, uma vez que neste caso, o fator determinante para sua ação é principalmente a questão do vetor gravitacional, ou seja, quanto maior este vetor, maior será o efeito dos comandos no movimento pendular. Ora, sabemos que o vetor gravitacional atua a partir daquilo que chamamos "posição zero" ou posição inercial, ou seja, quando estamos exatamente embaixo do centro do velame. Portanto, a ação dos braços neste exato instante do pêndulo irá maximizar o efeito. Se Joãozinho desejar minimizar o balanço, deverá sempre reduzir a quantidade de comandos nesta chamada posição zero.

Outra questão bastante relevante é que Joãozinho está voando e provavelmente não está alerta de sua verdadeira posição pendular, ou seja, ele não sabe se está ou não na posição zero. Sendo assim, é imperativo que Joãozinho treine de forma a aprender a identificar sua posição em relação ao velame. Os exercícios onde ele cria pêndulos que aumentam progressivamente e posteriormente os anula (da forma mais rápida possível) são bastante eficazes.

Os exercícios podem evoluir desde simples pêndulos frontais onde o corpo tem atuação zero até complexos wingovers com inclinação controlada que exercitam tanto corpo quanto braços de forma simultânea, passando por movimentos oscilatórios em curvas com inclinação variável (semelhantes a espirais assimétricas muito suaves). Apenas um adendo a esta questão do wingover, que é sabidamente uma manobra acrobática, mas pode ser executado de forma "civilizada" sem implicar em riscos de colapso, bastando para isto que Joãozinho procure respeitar a inclinação máxima de sessenta graus. Tal precaução por si só, já é um excelente exercício, já que uma vez que Joãozinho aprende a cadência do corpo (oposicional ao movimento do parapente), o pêndulo tende a aumentar significativamente. A única forma então de manter a inclinação lateral dentro do ângulo de sessenta graus é a educação dos movimentos dos braços, caso contrário, o piloto facilmente ultrapassa os noventa graus de inclinação incorrendo em colapsos bastante perigosos inclusive. Naturalmente vários pilotos executam wingovers com inclinações muito superiores a noventa graus, entretanto, para que se possa chegar a este tipo de manobras, o Joãozinho precisará passar por vários passos e com bastante paciência se desejar evitar o risco de violentos colapsos.

O leitor poderá achar estranho que até aqui não mencionei nada relativo ao controle de pressão, mas eu justificarei dizendo que o controle de pressão é uma conseqüência do estudo pendular. Naturalmente é muito mais eficaz se Joãozinho está ciente que existirão alterações de pressão durante seu exercício de pêndulos e que ele deverá prestar atenção a estas variações no sentido de aprender quando e como elas acontecem.

Ainda lembro, que quando Joãozinho fazia seus primeiros exercícios de inflagem e controle no solo de seu parapente, seu instrutor sabiamente lhe chamou atenção para as variações de pressão que aconteciam. Sendo assim, quando Joãozinho for fazer seus primeiros vôos, ele já deveria ter experimentado um estudo de variações de pressão no solo. Certamente tal atitude terá contribuído e muito para a aceleração do processo de aprendizado. Então, o controle de pressão tem dois pontos de vista: um que se relaciona à questão pendular, pois a pressão varia com a carga alar que está diretamente relacionada ao pêndulo uma vez que o vetor gravitacional soma-se àquele da massa (peso) do Joãozinho. Outro que está relacionado às alterações do ângulo de ataque causado pela turbulência. O ângulo de ataque está diretamente relacionado à trajetória do parapente; quando o ar se move em direções diversas, a trajetória está mudando constantemente e, por conseguinte, o ângulo de ataque também. Quando este é muito baixo, o parapente perde pressão que precisa ser imediatamente compensada por Joãozinho, caso contrário, o parapente se fecha. Finalmente, o êxito na missão de manter o parapente aberto depende tanto dos reflexos de Joãozinho em manter a pressão nos batoques próxima de um valor constante quanto dos movimentos colaborativos do corpo de Joãozinho no sentido de evitar o pêndulo lateral.

Silvio Carlos Ambrosini – Sivuca – www.ventomania.com.br

O Sivuca ministra cursos avançados e nestes, um estudo completo dos movimentos pendulares no parapente.

 

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