16 novembro 1999


"SEIS ESTÁGIOS ATÉ O PARAÍSO"
1 2 3 4 5 6

            Voar não é um esporte. Não é nem mesmo uma prática esportiva.
Voar é vida.
            Isto define o que você é, como pensa, como escolhe os amigos.
Dependendo do
            grau de sua paixão, o vôo também define com que rapidez você
descarta os
            amigos não voadores.
            Quando qualquer paixão governa sua vida, é natural que você não
apenas pense
            nela incessantemente, mas filosofe a respeito da mesma. Tenta
decidir a
            respeito do assunto na cara ou coroa. E, cedo ou tarde começa a
reconhecer
            os estágios de seu vício. Há o estágio inicial de
experimentação: a
            excitação de seus pés deixando o chão pela primeira vez,
segurando sua
            respiração conforme a terra parece desaparecer violentamente de
seus pés.
            Então vem a consciência de que sua vida está presa apenas por
algumas tiras
            presas às suas pernas.
            Mas, ao mesmo tempo em que você experimenta esta sensação de
que a vida é
            frágil, vem a consciência da vida em sua essência, a excitação
de estar
            simplesmente vivo, simplesmente experimentando a vida em sua
plenitude. Isto
            é voar.
            Nos primeiros meses, você vive para aliviar aquele primeiro
momento em que a
            terra se abriu abaixo de seus pés e proporcionou um novo mundo
            tridimensional de liberdade. Decolagem após decolagem é preciso
para saciar
            esta cede. Felizmente, a maioria das velas para iniciantes
permite que você
            se satisfaça!
            Então, aos poucos, e talvez de uma maneira triste, você se
acostuma com a
            sensação de voar com suas próprias asas. E, por levantar seus
olhos acima de
            seus pés pela primeira vez, começa a perceber uma nova
perspectiva de vida.
            Nos chamem de arrogantes, que desdenhamos, mas quando entramos
neste
            estágio, certamente encaramos a vida em sua forma

ônormal

 

2.
            Este segundo estágio
então, é de uma consciência maior, que
aumenta a cada
            metro que voamos mais alto, mudando nossa perspectiva de
normalidade para
            sempre, deixando-a nas fronteiras da terra. Tenha cuidado a
partir deste
            ponto, pois você está preso a cordas como uma marionete em sua
nova vida,
            sempre buscando voar mais e mais. Para sempre. Ou até você
fazer uma decisão
            consciente em se abster até que essa droga saia de seu corpo
através de
            absoluta abstinência.
            A vontade de voar  gera em você novos desafios que o mantêm
constantemente
            preso a esta armadilha. Depois da felicidade de sua primeira
hora voando,
            vem o terceiro estágio. Este é uma extensão do anterior, mas o
ego e a
            competição saudável entra em cena, deixando você com o desejo
de estar lá em
            cima mais tempo, vendo seus amigos pregando, e então tentar
ficar voando uma
            hora em condições fracas, onde apenas sua obstinação o mantêm
no ar.
            Então, um dia, tudo da certo e você sobe a uma altura que
jamais pensou ser
            possível. O relevo se trona verdadeiramente plano, as montanhas
meras
            linhas, o ar seco e frio, e o azul se estende conforme se curva
em torno da
            terra. Porque a partir desse ponto, você tem o poder de voar
para qualquer
            lugar que deseje. Tempo de vôo agora não significa nada. Até
mesmo torna-se
            insignificante, conforme você cruza horizontes atrás de
horizontes.
            Este, o quarto estágio de vôo, é provavelmente o mais intenso,
e é
            responsável pelos mais de 300 km de distância voados em
correntes de ar que
            se aceleram com rapidez.
            Lugares planos e áridos se tornam paraísos. Dust Devils se
tornam perigosos.
            Nuvens assustadoras mostram o caminho da próxima subida sem
controle. E lá
            no alto, ventos suicidas agora, que se equiparados a velocidade
do vento no
            solo são capaz de nos levar ao delírio só de imaginar, são o
ingresso de
            seus primeiros vôos de 100, 200 ou 300 km. Status de herói, ou
um tornozelo
            fraturado em decorrência de um pouso mal sucedido.
            Você se torna super sintonizado aos elementos, capaz de avaliar
as condições
            do dia instantaneamente após ter decolado, subindo em sua
primeira termal..
            Você pode apontar vários gatilhos possíveis para a próxima
termal a frente,
            achar a deriva da térmica segundos após ter entrado em uma nova
camada de
            ar, marcar as alturas das camadas de inversão sem olhar o seu
variômetro, e,
            parecendo quase que instintivamente, fazer a coisa certa para
voar mais
            tempo, mais rápido, mais alto e mais longe.
            Apenas alguns poucos pilotos podem considerar este, como um
estágio de pura
            exaltação. Aqueles que o alcançam, são tratados com o respeito
que
            provavelmente merecem. E ainda, com tanto para aprender, eles
se tornam a
            síntese perfeita de proficiência técnica e habilidade
intuitiva.  Tudo no
            qual, levam a um vôo magnífico, através de uma simples pressão
no acelerador
            ou nos batoques, a hora de uma curva, a coragem de picar a
vela, ou a
            previsão de um pêndulo brusco.
            O mais alto estágio de vôo? Quase, mas não exatamente. Combine
todas essas
            qualidades e insira-as em uma prova contra o relógio, adicione
uma corrida
            saudável de habilidade tática, preparação mental e precisão
matemática, e
            você está descrevendo o vôo de competição, o quinto estágio.
            Atentos aos perigos, sorrateiros, cartas nas mangas, eles se
observam na
            hora da decolagem com um olho nos competidores, outro nas
condições, todas
            as sensações alertas a qualquer mudança. Então, de repente,
como se fosse um
            sinal simultâneo, que ecoa pela montanha, eles decolam em
seqüências
            alucinantes, rapidamente ultrapassando o tumulto do bando
retardatário. De
            repente, reduzem ao se aproximarem do gol, cuidadosamente, com
ansiedade,
            fazem os cálculos do último planeio e ao mesmo tempo procurando
pelas
            térmicas que ainda possam sustente-los até o final da prova.
            Milhares de cálculos e então eles aceleram para chegar com
apenas alguns
            segundos a frente dos outros competidores, não perdendo um
metro mais que o
            necessário para cruzar a linha final.
            Neste estágio, velocidade é a essência. Velocidade, a qual é o
resultado de
            melhores decisões, melhor técnica e absoluta confiança. Alguns
poucos
            alcançam a perfeição neste estágio. Invariavelmente, eles se
tornam os
            campeões do mundo de nossa época, alguns chegando até mesmo ao
sexto
            estágio.

            Apenas alguns indivíduos se encaixam na descrição acima. Eles
provavelmente
            não competem, não fazem grandes distâncias ou buscam recordes
de altitude.
            Ainda assim, eles voam excepcionalmente bem em qualquer
condição. Eles
            sobem, permanecem lá em cima, fazendo vôos incríveis.
Virtualmente todas as
            vezes.
            Este, para mim, é o maior estágio de vôo.
            Onde o piloto fica de fora, deixa seu égo de lado e apenas voa
pela pura
            paixão de estar lá. Apesar de tudo. Provavelmente em condições
muito fracas,
            nos dias mais improváveis, percebendo o lift onde não deveria
existir,
            voando na única termal do dia. Suas intuição    no vôo, tão bem
sintonizada
            por indagar a si mesmo por tantos anos a simples pergunta: Como
sair daqui e
            chegar lá preferencialmente sem caminhar? E então aplicam todo
o seu
            conhecimento a fim de completar com sucesso esta tarefa.
            O elemento essencial deste estágio é fácil de ser reconhecido:
é a paixão de
            permanecer no ar, não diferente da vontade de sobreviver. Há,
entretanto, um
            requisito final: se ninguém viu você subindo e fazendo isto, se
ninguém
            percebeu o grau de dificuldade de seu vôo, você ainda sentiria
a satisfação
            em sua alma do prazer de realização quando pousasse?

            "Jaco Wolmarans "

 

Gostou do texto? Aproveite pra comprar o livro, tem muito mais!